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actrice_chauve's journal
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A história que aqui se conta ocorreu num dia comum, como nenhum outro jamais foi. Data de uma época comum, em uma cidade sem nada de muito especial – o que, por sinal, já fazia dela um tanto quanto singular. A nossa menina desta vez não dava indícios de que nos proporcionaria nenhum grande evento, como se pode dizer, de fato especial, digno de uma boa história. Entretanto, devido à nossa grande urgência literária – uma vez que estávamos decididos a não sermos autores-de-uma-história-só – nos propusemos a inventar qualquer coisa que fosse possível em prol do segundo volume do que seria a mais incrível trilogia já escrita sobre a tal menina do guarda-chuva. Aproveitamos também o ensejo introdutório para garantir aos futuros e mui respeitáveis leitores que o personagem do guarda-chuva, mesmo que deveras ausente deste volume, retornará triunfante no último episódio, com tema ainda a ser definido pela comissão de dramaturgia. Sem mais delongas, vamos então à história. Acordou naquele dia, muito mais cedo do que de costume, o sol lhe tapeando a cara, e decidiu pelo bem da história que aquele dia não seria apenas mais um. Respirava um ar um tanto quanto transgressor que entrava pela janela encrenqueira. A mãe havia se esquecido de fechar a persiana na noite anterior ignorando cabalisticamente o fato de que sua doce filha acordaria insaciavelmente vingativa quando o sol nascesse. Levantou-se de um pulo com os olhos em fúria, os lábios apertados e os punhos cerrados. Dirigiu-se lentamente ao cômodo mais próximo, escancarou a porta com força, quase pondo a baixo a maçaneta, subiu feroz no banquinho vermelho e alcançou o espelho. Admirada com sua própria feição, ateve-se um momento para ter certeza de que as sobrancelhas também estavam franzidas, integrando-se ao ar maquiavélico de seu rosto. Após um olhar preciso em direção à porta, sem hesitar ela agarrou com a mão esquerda a Sensodyne de seu pai e sem demora aplicou uma enorme quantidade do precioso creme na sua escova de dente de cerdas macias e desenho do Mickey. Sim, ela gostava do Mickey. E achava a Minnie uma verdadeira antipática. Escovou os dentes ainda em fúria, enquanto seus olhos se fitavam no espelho a planejar a próxima perversão. O café está na mesa!, gritava a mãe lá da cozinha. E a menina pressentiu, seria o momento perfeito para dar-lhe o merecido troco. Chegando à cozinha ela se sentou em frente à jarra de suco de laranja que a mãe havia acabado de aprontar. Não demore a tomar o suco que senão ele perde as vitaminas! Foi quando a menina percebeu a oportunidade que surgia à sua frente: toda a família reunida para uma refeição matinal e a chance de desonrar sua mãe bem no único dia da semana em que o pai tomava café em casa. Ela fez então a drástica revelação: eu decidi que a partir de hoje, pra todo o sempre, eu não gosto mais de suco. E decidi também que em todos os meus próximos cafés-das-manhãs eu sempre vou tomar meio copo inteiro de Coca-Cola. Com gelo. E pai, mãe, não ousem me desobedecer: a Sensodyne do papai está sob meu comando agora! Passados alguns dias, a Sensodyne do pai pôde ser resgatada em meio à coleção de bonecas da prateleira. Mas a menina manteve sua palavra; nunca mais tomou nem um gole de suco, de nenhum tipo de fruta. Porém alguns meses mais tarde, para sua surpresa, viu a velha persiana do quarto ser trocada por uma bonita cortina, que a menina podia fechar na ponta dos pés. |
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O que era uma vez fez-se duas ou três. Não dava mais jeito. A menina e o guarda-chuva, só os dois, e a chuva. Subiam toda a escada, a menina e o guarda-chuva, degrau por degrau, por degrau, por degrau. Já chegavam no quase-lá-em-cima, ela, a menina, e o guarda-chuva. E a chuva, que chovia uma chuva de fazer até nascer peixe na correnteza do meio-fio da rua. Ainda faltava um tanto de piso que a menina e o guarda-chuva perdiam de vista. Só se via a madeirinha do alto da porta, e o resto era um chão sem fim. Daí que não deu outra. A menina e o guarda-chuva tiveram pressentimento ruim. Puseram-se a correr, menina e guarda-chuva, degrau-por-degrau-por-degrau-correndo, e o pobre guarda-chuva se ia esbarrando e pulando, assustado a cada tropeço. Já se via quase o ferrolho da porta todo ele, quando de repente o guarda-chuva e a menina se repararam: chiu! E tudo era chiu, chiu, chiu outra vez. Mas não era possível. A chuva não se ouvia mais. O guarda-chuva, cansado da zombaria da chuva, já não queria mais voltar pro porão. Mas a menina ainda ouvia o grito longe da mãe, daqueles gritos que a gente não se lembra mais se foi de fora ou de dentro das orelhas que surgiu. Ô menina, deixa isso aí! Guarda-chuva não é brinquedo, ô menina! E só podia usar do guarda-chuva quando chovia... Mas vê se pode, chuva de verão como é que é! Devia era de se pôr uma cláusula no contrato dos termos de uso guardachuvorísticos pra que ele fosse liberado sair do porão mesmo nas horas que a chuva se ia embora. E desceram a menina e o guarda-chuva, de volta escada a baixo. Assim do mesmo que era antes, degrau-por-degrau-andando. Chegaram lá embaixo e esperaram no porão toda tarde pra ver, se a chuva voltasse, eles corriam de novo, os dois, guarda-chuva e menina, pra poder não tomar chuva com toda esperteza do mundo. |
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Eu já cansei de dizer que é pra ela parar com essa frescura de não comer carne, mas ela não tem jeito mesmo! - Então você toca violão? Foi quando ela se calou. Os olhos, cheios de lágrimas, pareciam perdidos, tontos. - Ah, mulher, deixa ela, coitadinha, grávida tem dessas coisas mesmo. - Toco, há cinco anos. Você gosta? - Pode me dar licença por favor? Meu ponto é o próximo. - Mas antes ela comia frango pelo menos, agora nem isso mais! É verdade, ela estava diferente. Em minha memória só restavam lembranças dos nossos bons tempos. Bons tempos aqueles... - Eu adoro. Já tentei aprender, mas não tenho jeito com cordas. - Daqui a pouco ela pára de comer salada também... - Claro, senhorita. Fique à vontade. E de repente ela se levantou e saiu correndo sem olhar para trás. Não olhou para trás! Deixou o quarto enquanto as janelas batiam- -Tac. Tac. Tac. Tac. É esse o ritmo básico que você vai usar nas cordas. - E aí sim vai ficar preocupante! Ela pode ficar anêmica! - É só ter persistência. No começo é difícil mesmo pegar o jeito com os dedos. ...batiam desritmadas, Tac. Tac. Tac. Não mais conseguindo resistir à pressão do vento. Aquela noite eu estava no inferno. Ouvindo a canção do inferno. Os demais passageiros pareciam ter se unido contra mim. Uma grande avalanche. Cheguei a pensar que não fosse conseguir escapar. O frango estava ótimo e a salada de atum magnífica. Mas ela sequer tocou no jantar. Houve um momento de paz. O zunido alucinado cessou e ela sublimou, por um momento, para sempre. Hoje teve sua primeira aula de violão. Acha que está apaixonada pelo seu professor. Essas coisas acontecem, vêm e vão, disse ele. Mas as lágrimas escorreram por seu rosto e se atiraram delicadamente sobre o prato intocado da salada de atum, tudo sempre ao som das cordas vibrando e pulsando ritmadas em seu seio. Graças a Deus consegui sair do Mercedes, pensei. Se não saísse àquela hora, não sairia nunca mais. -Por um momento pensei em voltar atrás, pedir desculpas, acabar com aquele climinha bobo que nenhuma de nós duas suportava mais. Mas a hora já tinha passado, não dava mais tempo. Ironia. Quisesse ela voltar atrás, e eu tenho certeza, os relógios do universo se atrasariam para ela. Só pensava no tempo. O tempo que me restava para mudar a direção e seguir o novo rumo. Aquela voz ao telefone me deixou inebriada. Estava fora de mim. -Eu me preocupei com ela, então como nunca. Aquelas lágrimas, aquele choro contido, me atingiram em cheio no peito. A gravidez não era o problema em questão. -Eu não sei bem o que devo dizer a ela, talvez não dizer nada, e talvez, com sorte, ter tempo de dizer que a amo. -Eu também. Eu também não poderia permitir que a situação fugisse ao meu controle. Foi quando decidi parar, pela segunda vez, as aulas de violão. A porta da enfermaria estava entreaberta. O sinal suspenso já devia ter sido notado por lá. -O que você quer dizer com isso? Gravidez psicológica?! Não pode ser... -Não se culpe. -Você vai sempre desistir de tudo que lhe desafia? Alguns meses de treino e você já estaria ótima. -Não se culpe. Ele me olhava de um jeito doce, complacente a cada nota fora do tom. Não era possível que eu não me apaixonasse! -Não se culpe. -Foi o melhor que podia ter acontecido à sua mãe. Ela não suportaria levar a vida debilitada que os médicos previram. Não se culpe. A verdade mais pura e cruel instaurou a indignação e o aborrecimento à mesa do jantar. As respirações suspensas, os olhos fitando aquela barriga ovalada, já adiantada na dita gravidez. Não me culpar? Eu a vi se esvaindo pelas janelas da UTI e não pude sequer ver seus olhos com vida pela última vez. Não tive tempo. Mas toda a sua música parecia ser para mim. Todo o seu carinho parecia ser meu. E eu era só mais uma. -Não suportava mais guardar isso só pra mim. Vocês têm que entender! –ela dizia. -Só mais uma. Só mais uma aluna. E eu tive foi tempo de sobra. Todas as chances de me reconciliar. Mas o orgulho depois de ser contrariada... Ah, orgulho... -Só mais uma. Foi quando ela se calou. Os olhos, cheios de lágrimas, pareciam perdidos, tontos. Só pensei no pior. Desde a chamada do pronto socorro. E um ônibus! Era o último lugar em que eu poderia estar para receber uma notícia como essa. -Essa medicação toda... e eu não quero assumir pra mais ninguém que essa gravidez não existe. Que essa barriga é mais uma armação da minha mente. Cheguei a pensar que não fosse conseguir escapar. -Não se culpe. -Tac. Tac. Tac... Batiam –desritmadas – as janelas da UTI. . . . . . (Tentando finalizar... um ano e meio depois...) |
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aquele gosto de saliva na boca eterna concretude. o arrepio, frio borboleta se contorcendo ao menor movimento e vento. aquele pulso de coração na boca aquele conforto de olho no olho O escuro se faz,
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Você me fez e me moldou. sou a fôrma que você usou para criar a sua dor. Me abraça e se vai enquanto o beijo se esvai como pó em vento do gesso que não desenformou. E às vezes me pego pensando se não é isso o que eu queria pra mim em sua mão ser sonho ser desejo, ser demônio. Fruto do seu suor, intenso, do seu calor. Sofrimento em versos que você me abandona depois porcelana estilhaçada no chão a chorar e a lhe pedir pra ficar. |
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Ontem escrevi uma carta pra mim dizendo pra não chorar mais que a vida passaria mesmo entre arranhões e um talvez, um quem sabe outra vez. Vi que a vida passa em turbilhão. Na janela, a fresta. E hoje escrevi uma carta pra mim |
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Me dá a mão, vamos sair, quero te ver. Quero lembrar daquele gosto de café Ouvir cantar dizer sonhar Achar num trago de ti Tudo aquilo que perdi de mim. Vem vamos dançar Mas não me negue, nem te esconda |
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E foi assim quando um dia eu vi o jornal Talvez nao precisasse ler, as imagens me quebraram o coração Eu vi o mundo, eu vi a podridão Toda a humanidade jogada no lixo Feito uma pregação, eu vi Ninguém me disse não, eu vi Eu vi... E foi assim quando um dia eu abri a janela Vi que o sol não era mais amarelo Chorava torto na massa marrom Com tanta, tanta poluição Feito uma pregação, eu vi Ninguém me disse não, eu vi Vi o sol chorar, eu vi Eu vi... E foi assim quando um dia eu abri a porta E vi que existe vida fora do meu coração E o homem jogado na calçada Varrido como poeira do chão Ninguém me disse não, eu vi Vi o homem morrer, eu vi Antes mesmo de nascer Eu vi... E foi assim quando um dia eu fechei a porta E vi a decepção em minha própria casa Vi doença, droga, destruição Vi a podridão do mundo invadindo meu quintal Ninguém me disse não, eu vi Vi meu mundo ruir, eu vi E de mãos atadas eu vi Eu vi... E foi assim quando um dia eu quis sair E vi a fome, a peste, a corrupção Vi a rosa no cimento murchar Vi que alma era assunto em extinção Ninguém me disse não, eu vi Vi o cinza das entranhas, eu vi E mesmo chorando, eu vi Eu vi... E foi assim quando um dia eu quis voltar E vi que em casa já não podia ficar Vi que a tristeza já tinha me dado as mãos E que eu já mal tinha mais meu coração Ninguém me disse não, eu vi Vi a podridão também em mim, eu vi Que ninguém escapa, eu percebi E vi...
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você me olhou se aproximou e antes mesmo que eu pudesse respirar você me abraçou e me beijou e me amou até o primeiro sol raiar você se virou se cobriu e antes mesmo que eu pudesse acordar você se foi pra nunca mais e aqui fiquei toda sua até o último luar. |
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I wanna hold you tight I wanna have you tonight Wanna fly away, Sing sweet songs till dawn I wanna brake all rules I wanna say it to you Wanna kiss you now And whatever time takes I wanna be with you In this moment forever Just for one night For the rest of my life.
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bom dia meu amor, minha luz bom dia que o sol lhe sorri um novo dia Acorda vem ver a manhã que eu preparei pra você Café com pão, leite e requeijão E a brisa doce espalhando o cheiro da nossa última comunhão
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Eu conheci uma mulher. Por um momento a vi por inteira e logo a perdi novamente. Mas do pouco que pude percebê-la..... Ela tropeça muito e vive em função dos outros. A troco?! Também é meio arrogante (acha que está sempre certa) e normalmente não se permite cometer erros. Mas ela finge que não é assim não! Uma mania é sempre tentar corrigir os outros. "Não seja assim, não faça assado.." Conselheira de uma ova! Mas até que às vezes sai algum conselho que vale a pena. Às vezes. Metida? Não. Autoconfiante? Nem um pouco. Apaixonada? Muito. Mas como eu já disse, ela tropeça tanto... Quando ela se empolga com alguma coisa não pára de falar, e conta a mesma história várias vezes [até ela mesma se encher]. Ah, chora demais! Isso é outro problema... Também é carente, o que chega a ser um saco.. Mas é carinhosa pra caralho. Se tem uma qualidade é ser muito convicta das coisas que gosta e quer. Ela gosta de teatro. Ama, pra falar a verdade. De música também. Chega a ser cansativo! Quando está rouca ela fica com voz de traveco, mas a tia dela acha isso muito sexy. Gosta muito também de escrever. Se não tivesse papel, ela escreveria nas paredes. Ela tem uns amigos muito fodas. Acho que no fundo no fundo, ela vive por eles. E não vive sem eles. Mas eles não sabem disso. Fica doente todo mês, e tem dores de cabeça e tremedeiras freqüentes [ela é toda ferrada]. Só usa jeans e odeia salto. Com sorte você a vê com uma saiona. Não usa nenhuma roupa que não a permita ficar de pernas bem abertas e se estirar no chão. Sim, ela tem peitos grandes e odeia isso. [Mentira, ela gosta, mas queria muito que fossem menores..] Ela nunca pinta as unhas. E também não passa batom. Perfume? Bah! Ela tem um sorriso grande e feliz. E distribui sorrisos e abraços e beijos pra todo mundo, o tempo todo. Algumas pessoas estranham essa mania de ficar se encostando e roçando em todo mundo.. Ela tem o dom de raspar a cabeça e continuar com muito cabelo. HA. E o cabelo dela fica todo pra cima quando ela acorda. Péssimo. Parece o Beakman! Quando dorme também passa vergonha: ela se agarra em quem estiver do lado, com pernas e braços e o que der. E não acorda por nada... Ela tem sonhos engraçados. E todo mundo sonha com ela. Ou já sonhou pelo menos uma vez. Ela fala inglês e baleiês. Fala também com crianças e às vezes com adultos. Ah, já disse que ela adora teatro? Ela não tem namorado. Nem cachorro [não fale nisto perto dela que ela chora]. Nem ninguém que ligue pra ela todas as noites para jogar conversa fora. Também não tem religião. Não há nada que ela acredite mais do que nas próprias pessoas. [Não em suas invenções dogmáticas]. Mesmo assim, ela estuda uma filosofia de vida: budismo. Quem sabe um dia ela esteja pronta pra ele. Ela é caseira. E dengosa. E da boca dela saem todas aquelas besteiras que você pensou e não teve coragem de falar. Ela tem miopia, astigmatismo, fotofobia, rinite, pressão baixa, alergia a pimentão, distúrbio de ansiedade e estrias no joelho. Eu já mencionei o fato dela ser toda ferrada?! Mas não, ela não é vegetariana. É adepta da teoria de que as alfaces não têm sequer a chance de correr pra fugir do facão. E não fazem sexo antes de morrer. Mas ela também come alfaces. Ela não tem nada contra pagode, sertanejo, axé ou funk. O problema é que ela gosta de boa música, não de corpos gostosos e malhados achando que fazem música. Ela tem dois vícios de consumo: doces e livros. Ela se interessa por qualquer coisa. Qualquer assunto tem sua parte boa, nem que seja só a de admirar o entusiasmo do outro em falar de um assunto, digamos, chato. E pra não ficar chato, vou parar por aqui. |
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E é assim, misto de silêncio e névoa O riso torto que esconde a lágrima Que escorre quieta e desapercebida Na face que ninguém enxerga. Decepções Revelações O nome que eu não queria ouvir E ouvi. O beijo que eu queria dar E não dei. O abraço que eu quis receber E não senti. O carinho embalado e direcionado Para o endereço errado.
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Ah, saudade! Quem me dera, que saudade Do calor, do corpo sobre o meu Forte, peso. Saudade do pé roçando a perna Das mãos que se unem e os dedos que entrelaçam dois corpos num só. Saudade, tua mão no meu rosto Do teu olhar carinhoso Sorriso malicioso E prazer de gozo. É o vento que quente bate à nuca O alçar vôo de pés no chão E os pés fora do chão Sublimando, amando Fogo que arde e se vê Ferida que dói e sente E sinto. Fundo, sinto. |
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Abaixo a ditadura! Abaixo da ditadura Embaixo lá fundo a canção se faz ouvir e ouvem e cantam e vaiam, marmelada. e mandam e tentam e barram, censura. e batem e batem e batem, o dops. Enquanto um yankee,
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Pessoas correm pelas ruas loucas, as ruas. Em meio à correria, um pingente no chão. Escrito nele, Jesus. Se perdeu então, Jesus. Pisoteado escarrado escrachado arrancado desamado desalmado. E Jesus lá ficou, a ver o tumulto passar E passou. Passou os gritos, a escuridão Passou também a poeira no chão. E depois do fim alguém voltou E como ainda fosse possível A Jesus carregou. Restos de esperança inóspita Compondo um fim no trágico fim.
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Aquela noite foi-se em claro. Não pelas luzes, já há muito apagadas mas pelo ardor da angústia que só fazia iluminar-me, lampião. Quisera eu sentir amores e emoções O que me resta de (ir-)real é pulso Enquanto de um abraço e a carícia
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- Eu disse pra Dani que é pra ela parar com essa frescura de não comer carne, mas ela não tem jeito mesmo! - Então você toca violão? Foi quando ela se calou. Os olhos, cheios de lágrimas, pareciam perdidos, tontos. - Ah, Carol, deixa ela, coitadinha, grávida tem dessas coisas mesmo. - Toco. Há cinco anos. Você gosta? - Oi, pode me dar licença por favor? Meu ponto é o próximo. - Mas antes ela comia frango pelo menos, agora nem isso mais! É verdade, ela estava diferente. Em minha memória só restavam lembranças dos nossos bons tempos. Bons tempos aqueles... - Eu adoro. Já tentei aprender mas não tenho jeito com cordas. - Daqui a pouco ela pára de comer salada também... - Claro, senhorita. Fique à vontade. E de repente ela se levantou e saiu correndo sem olhar para trás. Não olhou para trás! Deixou o quarto enquanto as janelas batiam- -Tac. Tac. Tac. Tac. É esse o ritmo básico que você vai usar nas cordas. - E aí sim vai ficar preocupante! Ela pode ficar anêmica! - É só ter persistência. No começo é difícil mesmo pegar o jeito com os dedos. ...batiam desritmadas, não mais conseguindo resistir à pressão do vento. Àquela noite eu estava no inferno. Ouvindo a canção do inferno. Os demais passageiros do ônibus pareciam ter se unido contra mim. Tudo era uma grande avalanche. Cheguei a pensar que não fosse conseguir escapar. O frango estava ótimo e a salada de atum magnífica. Mas ela sequer tocou na comida. Houve um momento de paz. O zunido alucinado cessou e eu sublimei, por um momento, para sempre. Hoje teve sua primeira aula de violão. Acha que está apaixonada por seu professor. Essas coisas acontecem, vêm e vão, disse ela. Mas as lágrimas escorreram por seu rosto e se atiraram delicadamente sobre o prato intocado da salada de atum, tudo sempre ao som das cordas vibrando e pulsando ritmadas em seu seio. Graças a Deus consegui sair do Mercedes, pensei. Se não saísse àquela hora, não sairia nunca mais. -Por um momento pensei em desistir de tudo. Mas a hora já tinha passado, não dava mais tempo. Ironia. Quisesse ela voltar atrás, e eu tenho certeza, os relógios do universo se atrasariam para ela. -Talvez não, talvez ainda houvesse outra saída! A porta da esquerda está sempre trancada, mas ainda está lá, não? Malditos fabricantes de autos, malditos homens suburbanos. -Eu me preocupei com ela, hoje como nunca. Aquelas lágrimas, aquele choro contido, me atingiram em cheio no peito. A gravidez não era o problema em questão. -Eu não sei bem o que devo dizer a ela, talvez não dizer nada, e talvez, com sorte, ter coragem de dizer que a amo. -Eu também. Eu também não poderia permitir que a situação fugisse ao meu controle. Foi quando decidi parar, pela segunda vez, as aulas de violão. (continua..)
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salas, janelas e portas, cortinas almofadas e saias rodadas [uma canção solta no ar] os pés mal tocam o chão os dedos e as mãos e ombros, quadris e pernas e coxas os rostos se encontram [vento] cabelos e olhos e bocas, sorrisos gritos suaves, tropeços risos em comunhão [sensação] passos e pulos e amassos os olhos fechados e nem sei mais...
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Que minha voz seja ouvida ao longe E seu som seja doce ainda que tristeza. Que seu corpo vibre e sua alma borbulhe A mente distante de tudo que um dia foi real. Que o eterno não seja pra sempre mas por hoje E que sua mente rejeite o que seu corpo mais quer Que ouçam-se os tambores E as notas distorcidas de um violino Bebam-se os licores mais azedos e amargos Vistam-se os trapos imundos da coragem. Que defequem a podridão e a avareza Que só reste o lixo puro, natural, preciso E enquadrado na mais imponente parede A fim de ser admirado como tal Infalível, Conciso, Demente Que não haja a luz no fim do túnel Mas palitos de fósforo espalhados pelo caminho escuro. Que você sinta a melodia no som da minha voz E me ouça aqui e agora tal como nunca. A pulsação ritmada de uma orquestra de vidro Falível, Dolorida Majestosa, contudo, até o último coração erguer-se E retirar-se da platéia.
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completoploto carnificina desvirtuada plug-ins-e-outs fios na tomada do século com-ple-ta-men-te-plo-to e a pistola na gaveta e o dente embaixo do travesseiro e plat e plot completamente surdo o canhão pela janela traga um gesto de carinho e vai-se embora de fininho acenando com um ar um tanto quanto muito ou nada presidencial.
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Nobody said it would be easy Oh, tell me about it If you had looked straight upon yourself If you had done not the right thing [just once] Had let the mistake come up But you didn’t, what a surprise But don’t tell me, dear So please forgive me
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Ela passou por mim como se não tivesse notado minha angústia, e de repente virou-se – bem assim – e olhou-me tão profundamente que de um impulso desviei meu olhar para o chão. Sorri, como que para disfarçar, mas não fui convincente. Ela continuava a me olhar ainda de forma tão impiedosa que pude sentir um buraco aberto em minha alma, era ela a me perfurar. Não haveria alternativa: de um longo suspiro pus-me a fitá-la reciprocamente, mas certamente sem a mesma intensidade e magnitude. Era a minha breve resposta aos seus anseios. Contradiria-me novamente, mas sim, eu estava ali: corpo e alma por ela. Para ela, antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto.
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Feel like someone's watching me. Every moment, each second. Feel like I'm a murderer Stealing a piece from the world. Carrying it with me Holding close to my heart As if it's the greatest thing I've ever had. I love you Truthly, careously Even not recognizing you From my dreams or walks. I don't know you as yourself But I know you Just the way I feel you. Now I can understand What Valerie wrote. I love you, my life My friend, my heart. (06.05.2006)
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-Não quero mais. Acho mesmo é que já deu o que tinha que dar. Talvez se tudo tivesse sido diferente, mas não. Talvez se algum abraço tivesse sentido, mas não. Talvez se um beijo tivesse dado... mas não.
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Rio O riso num rio Riso que já não é riso É rio É água E lágrima É riso o choro soluçado no escuro d’alma Hienas que choram rios
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Por que, meu urso, por quê? A dor da tua ausência Me queima a pele e fere a'lma E tampouco me conforta Conhecer teu coração E saber da ausência tua a razão, Que a gaivota voa descompassada Sem rumo, tonta Bêbada do mar da dúvida E da solidão... Volta, meu urso, volta Volta que os anjos Te aguardam a resposta. Faz tua estrada Nômade e satisfeita E ganha asas, meu urso Que a gaivota te aguarda Do outro lado do mundo.
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Piratas, anjos na terra do céu. E as asas de chocolate valsando Na dança dos cisnes. O som alto, o toque da sua voz Estalando mariposas na minha barriga. Corre, meu urso, corre Vai-te embora antes que a música acabe. E deixa, deixa tuas pegadas no chão Ainda úmido da chuva daquela tarde doce. E deixa, deixa tuas pegadas no chão Na trilha da mata virgem Que te sigo aonde for. De longe, observando por entre As árvores, correndo pelos arbustos Te vejo, te olho nos olhos mas não Não posso, meu urso. Que os anjos me chamam e não posso Que as asas de chocolate e não posso Que o estalar das mariposas e não posso Que te ver, querer ir contigo e não posso A dança dos cisnes não deve parar Não... Não.
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Pari. Cuspi palavras totalmente sem sentido Nada faz sentido! Sobretudo minha necessidade absurda De parir estas palavras. Um alívio. Cada risco no papel é um peso Que eu tiro de cima do meu corpo. Corpo deitado, mas contraído. Tenho que dormir, eu sei Que tenho que escrever. Nem sei o que escrevo, Não gosto de ler o que já foi. Vou riscando cada palavra, O que me vem à cabeça. Talvez nem passe pela cabeça. Meus dedos comandam o lápis E é por isso que nada faz sentido. Não tem que fazer! Eu só preciso respirar mais aliviada, tirar esse peso de cima de mim. E amanhã – que já é hoje, não consigo dormir – Jogo tudo isto fora. Talvez eu não jogue, talvez meu ego não permita. Talvez amanhã – hoje – eu me pegue Pensando num título para este garrancho Ou talvez eu ache graça nestas palavras de desespero, insensatas. Talvez eu queira levá-las para um palco, fazer delas o meu teatro! Talvez alguém possa se identificar comigo Talvez alguém também sinta A mesma necessidade de parir palavras. Mas talvez eu odeie isto. Meu humor muda facilmente. E é por isso que eu não quero ler. Cada risco no papel é um peso Que eu tiro de cima do meu corpo. Tenho que escrever, eu sei Que tenho que dormir.
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Ele nunca escutara ninguém. Sua mãe havia lhe dito isso por intermináveis anos. Os finos e escassos fios grisalhos de sua mãe já não preenchiam mais todo o prolongamento da delicada cabeça. E o rosto um tanto quanto amargurado e torturado pelos enfrentamentos da vida agora já não era mais marcado por pó e tinturas. Ela já não se escondia mais por trás dessas máscaras rejuvenescedoras. Sua face estava finalmente ali. Seus olhos de um tom difuso entre o verde e o mel - sim, mel, seus olhos jamais foram castanhos - fitavam-no genuinamente. E os reflexos da idade em seus lábios agora não mais carnudos como antes davam ainda mais segurança às palavras que pronunciavam: ele nunca escutara ninguém. Se, de fato, nunca houvera escutado ninguém em toda a sua vida, agora ele o fazia com maestria. Cada palavra pronunciada pela mãe penetrava-lhe as entranhas, enlaçava o estômago e corroia a garganta até seus lábios secos e incapazes de produzir qualquer som. Ele a olhava como se ela fosse o último exemplar de um livro antigo no qual ele acabara de derramar uma taça de vinho tinto. O erro jamais poderia ser corrigido. A mancha de vinho estava bem ali à sua frente, dominando mais páginas a cada segundo e, em poucos minutos, tudo estaria perdido. Mas para que adiar? Tudo já estava, de fato, perdido há muito tempo. Na verdade, desde que ele havia se deparado com o livro aberto à sua frente e decidido, por conta própria, brindar à sua aparição. Suas escolhas foram erradas. Definitivamente, o caminho não era aquele. Não, não era. E ele sabia disso, sempre soube. Mas quem se importava realmente com suas escolhas além daquela velha desfigurada postada à sua frente com lágrimas nos olhos? Ninguém. E ele sabia disso também, aliás, sempre soube. Não que ele houvesse ligado para esse fato em um momento sequer de sua vida. Não fazia mesmo diferença. Foi quando ela se calou. Os olhos, cheios de lágrimas, esvaziavam-se a cada manso piscar e cada movimento de pálpebras era forçado como se fosse o último. Mas, o som do silêncio parecia ainda mais terrível. Era como se ele acelerasse a destruição do livro, agora já manchado de vinho até as suas páginas centrais. A porta da enfermaria batia desritmada, não mais resistindo à pressão do vento. Acompanhando-a, numa sinfonia descompassada, o perturbador farfalhar do papel celofane vermelho que embrulhava o vaso de botões de orquídea à frente da janela escancarada. A vontade dele era a de jogar aqueles botões pela janela mas em um forte impulso, talvez ele se jogasse junto. O martírio daqueles intermináveis segundos já lhe invadira o corpo, curvado sobre a maca, com as mãos debruçadas sobre o rosto numa tentativa vã de esconder as lágrimas que, agora, escorriam também por sua face. Balbuciava algumas palavras desconexas e inaudíveis enquanto se forçava a não olhar para a mãe; seria muito cruel fazê-lo agora. Ainda com as mãos sobre o rosto jovial começou a recuperar algumas das lembranças mais antigas das quais era capaz naquele momento quase fúnebre. A nostalgia agora tomava conta dos seus pensamentos. *** Tudo começou a muitos anos numa esplendorosa tarde quente de outono, quando ele pediu Laura em namoro. Laura era uma mulher comum, de rosto comum, olhos castanhos comuns, cabelos morenos encaracolados de forma comum, roupas comuns e da moda, pés 37 comuns, brincos e esmaltes iguais aos que toda mulher comum na sua idade tinha. Sua estatura e seu peso também eram medianos, comuns. Suas sobrancelhas grossas talvez fossem a única coisa que chamasse atenção, eram marcadas e bonitas, mas nada tão surpreendente. Ele chegou a se perguntar por que a tinha pedido em namoro, se havia tantas outras mulheres solteiras iguais a ela na faculdade. Ah, sim... Como poderia ter se esquecido daquele maravilhoso e decisivo detalhe? Laura sentava-se à grama do parque com ele todas as tardes, tragava seu inconfundível cigarro de menta e começava a conversar. Sua voz doce e ao mesmo tempo grave penetrava-lhe os ouvidos e em meio a conversas, risadas e sorrisos encantadores ele se perdia do mundo, se esquecia do tempo. O mundo naquelas horas era só Laura. O céu era pintado da cor Laura, a grama pontuda era Laura, o vento e o sol que o atingiam eram Laura e Laura era tudo. E à noite, deitado na cama, sem sono, ele observava o teto repleto de estrelinhas fosforescentes que eram Laura. Pensava em seu sorriso sincero e encantador e ouvia suas histórias e desabafos como se conversasse agora com as pequenas estrelas brilhantes. Agora Laura era sua namorada, e ele como todo bom namorado foi convidado para um jantar com os sogros, em sua casa. Chegado o dia, ele estava muito ansioso e receoso também. Será que os Couto lhe tratariam bem? Ou olhariam para sua cara de desespero e indagariam porque a primogênita estaria perdendo tempo com "aquilo"? Preferia lembrar que o namoro era com a filha e não com os pais dela, mas era inegável a importância de se ter sogros amáveis e coniventes com o relacionamento. Às dezenove horas ele já estava sentado num banco a duas quadras da casa dos Couto, tentando tranqüilizar-se para então chegar pontualmente às dezenove e trinta na referida casa como o combinado. Suas mãos suavam frio, a camisa estava amassada nas mangas e o gel do cabelo insistira em não funcionar desta vez, deixando os fios arrepiados demais. E em meio a todas essas preocupações estéticas e frases feitas na cabeça, em pouco mais de vinte minutos lá estava ele, com o dedo indicador congelado a meio centímetro da campainha, quando finalmente a porta se abriu. Era Laura, linda em sua trivialidade e com o rosto singularmente corado, demonstrando não ser a única ansiosa para o acontecimento. Diferentemente dele, Laura nunca havia namorado ou tido relacionamentos mais sérios, mas estranhamente ambos compartilhavam o calafrio inédito que marcava a situação em que viviam. Foi apresentado formalmente ao senhor e à senhora Couto e sem meias conversas sentaram-se à mesa de jantar. A mesa estava impecavelmente arrumada e enfeitada seguindo o exemplo da mãe de Laura, que se encontrava em elegantes trajes de gala. Mais tarde, durante o jantar, ele descobriria que a sogra era juíza de uma comarca da região, o que justificava a elegância com que se vestia, até então estranhada pelo rapaz. O pai de Laura fazia o tipo tranqüilo, desleixado e à vontade como se o genro fosse na verdade um primo distante, novo na cidade. Foi assim que ele se sentiu quanto ao sogro. O típico boa-praça, vestindo uma antiga camisa do Santos, o cumprimentou com um tapinha nas costas, um sorriso largo e até fez trocadilhos com o nome do genro. O jantar fluiu sem muitos problemas, a não ser por algumas piadas preconceituosas do sogro, todas brutalmente reprimidas por olhares fulminantes da esposa, que parecia ser a única ainda interessada em manter a formalidade do encontro. O sogro fazia questão de deixar explícito, independente da ocasião, todo o seu machismo e preconceito homossexual e racista. Mas Laura já havia o alertado anteriormente, para que nem ao menos tentasse contrariar o sogro em suas teorias tradicionalistas e conservadoras. Ele não conseguiu, como já previa, escapar de perguntas sobre o namoro como quando a sogra lhe perguntou incisiva e educadamente quais eram suas intenções com Laura. Neste momento o carpete de madeira da sala pareceu sumir e ele se sentiu perdido no fundo de um poço, sendo resgatado por uma fina corda que se desgastava um pouco a cada olhar questionador da sogra. E Laura lá em cima, distante e a salvo, o olhava com pena e ao mesmo tempo intrigada com o silêncio do namorado. Voltando a si, o rapaz engasgou, corou-se e quando tentou ensaiar uma resposta eloqüente, o sogro interferiu na conversa como o bombeiro que chegara com o cabo de aço para salva-lo de um acidente, quebrando o silêncio pesado com uma piada homossexual. Foi o suficiente para que Laura e o pai começassem a rir e a mãe, irritada, pedisse licença para ir à cozinha. O sogro parecia definitivamente ter gostado do genro, representando o papel quase paternal de protegê-lo e defende-lo das grosserias e intimidações da sogra. Laura assemelhava-se ao pai nesse quesito, mas era fisicamente igual à mãe. Mesmo sentindo-se aliviado por ter escapado das indagações da sogra, mal sabia ele, o mais importante ainda estava por vir. O destino lhe reservara a maior surpresa da noite para o final do jantar. Ainda estavam todos sentados aguardando a sobremesa quando Pedro chegou. Pedro era o irmão mais novo de Laura, diferença de pouco mais de um ano. Entrou como um furacão, atravessou a sala de estar e então surgiu na sala de jantar, dissipando o assunto da conversa e a atenção do cunhado -que congelara, boquiaberto - tão rápido quanto entrou em casa. Ele ficou ali, sem reação, observando Pedro pelo que lhe pareceu horas. Cada centímetro de Pedro era perturbadoramente belo, e pela primeira vez em sua vida lhe ocorreu com um homem o que sempre lhe ocorria com o sexo oposto: perdeu o controle sobre seus movimentos e seus olhos congelaram fitando o cunhado sem conseguir voltar à indesejada realidade do jantar com os sogros. Pedro era uma obra de arte, um monumento contemporâneo de Antonio Canova. Os finos cabelos castanho-claros cuidadosa e propositalmente despenteados caíam como ondas por suas orelhas. As sobrancelhas eram grossas, lindas como as de Laura, e os olhos profundos e verdes, cílios longos. O nariz nem muito grande nem muito pequeno, nem grosso nem fino, perfeito. Os lábios, carnudos e atraentes, abertos num sorriso fascinante como o de Laura, mas ao mesmo tempo sedutor. A barba e o bigode cuidadosamente bem feitos completavam um rosto escultural. Seu corpo musculoso extasiou o cunhado, cuja única reação foi suar frio. Vestia uma regata branca um pouco suja e uma calça jeans larga, presa por um cinto mal colocado. A regata deixava à mostra os contornos de seus braços largos e marcava seus mamilos. Ao reparar nos mamilos de Pedro ele estremeceu. O que estava fazendo? Cultuando aquela beleza italiana por um período de tempo indefinível enquanto Laura ao seu lado estava provavelmente ansiosa para lhe apresentar o irmão caçula! Seu comportamento era inaceitável, ele tinha plena consciência disso, mas ainda não havia retomado o controle sobre o foco de seus olhos. Era confortante notar que Pedro também o observava intrigado. O que estaria o garoto pensando do namorado de sua irmã? Daria tudo para penetrar em sua cabeça naquele momento e descobrir seus pensamentos. Queria que Pedro também estivesse sentindo o que ele sentia, queria confirmar o que seus olhos e seu sorriso diziam claramente. Queria não ser o único a sentir tal sensação inédita. Foi então que Laura os apresentou, para formalizar a intensa troca de olhares que já os havia apresentado momentos antes. Pedro caminhou lentamente até ele, o que pareceu durar uma eternidade. A cada passo, Pedro o olhava mais profundamente nos olhos, lhe causando arrepios deliciosos na espinha. Ele se levantou, para retribuir as honras. Um abraço singelo, de desconhecidos conhecidos tentando disfarçar um a existência do outro, e ele não pôde deixar de notar um intenso, muito intenso volume na calça de Pedro que roçou ansioso na coxa direita do cunhado, fazendo estremecer definitivamente sua espinha e deixando-o estranhamente excitado. Ao virar-se, Pedro abaixou uma das mãos e encontrou com precisão o membro do cunhado. Deu um sorriso encantador e encheu a mão, apertando com força. Uma névoa de sensações envolveu no mesmo instante a cabeça do cunhado, que sentiu novamente como se tivesse perdido o chão. Já não sentia mais os pés nem as pernas. Mas desta vez estar no fundo do poço era uma sensação deliciosa. E ele definitivamente não queria nenhum bombeiro para lhe salvar que não fosse o desconhecido irmão de Laura. Laura! Lembrar dela naquele momento foi como um balde de água fria, de realidade fria. Laura, Laura. Sentou-se, tímido, ao lado da namorada e evitou olhar novamente para Pedro, que agora conversava à vontade com a irmã, sabendo cruelmente disfarçar o que acabara de ocorrer. Decidiu então que se sentaria com a família para a sobremesa, após convencer a mãe que jantaria depois. Pedro sentou-se frente ao cunhado, que por sua vez se resumia a fitar, confuso, a taça de porcelana ainda vazia sobre a mesa. Ele digeria amargamente aquilo tudo que acontecera enquanto fitava a porcelana. Não era possível! Havia se entregado deliberadamente a uma sensação inoportuna. Pedro? Pedro era irmão de Laura. Sua atitude não era aceitável. Com que direito o garoto ousara roçar-lhe a calça, apertar-lhe o pênis? Incitar-lhe uma sensação proibida, inadequada, principalmente tendo em vista a ocasião em que ocorrera? Inadmissível! Completamente inadmissível. Definitivamente inadmissível. Inadmissível, sim, mas ele tinha gostado e correspondido. Isso tudo ainda lhe parecia muito estranho. Ele não era homossexual, tinha certeza disso! E as intermináveis noites que passava com Laura? Eram a prova irrefutável de que ele não era gay. E o tesão que ele sentia pelas garotas do Casarão? Aquelas garotas eram frutos da árvore divina do pecado. A maçã que Adão comera no paraíso se reproduzia nelas fielmente. Estava convicto. Ele amava mulheres e amava também todo o resto que as amar acarretava. E por que essa sensação agora? Sua vida já estava ótima, não tinha do que reclamar, não tinha o que desejar que já não tivesse. Um homem! Um homem igual a todos os seus amigos e primos, mas ao mesmo tempo diferente. Um homem que lhe despertara em poucos segundos todos os desejos carnais que sentia quando ia ao Casarão. Talvez isso fosse normal, talvez todo homem tivesse que passar por isso para assegurar sua heterossexualidade. Mas não, seu pai nunca teria sentido algo parecido por um homem, disso ele tinha certeza. O quê, então? Ele era bissexual? Era isso? Não havia outra explicação. Quando parecia ser oportuno, ele desviava o olhar da porcelana e observava Pedro de canto de olho, fingindo analisar o Picasso que se encontrava pendurado na parede de trás. E a cada vez que analisava o Picasso, ele tinha mais certeza. Sua atração por Pedro era tão irretorquível quanto o amor por Laura e o tesão pelas garotas do Casarão. Ele desejou neste momento que Pedro se virasse para todos os familiares e dissesse que não era irmão de Laura, mas sim um farsante. Que havia ocupado o lugar do verdadeiro Pedro Couto enquanto este se divertia em uma inocente festa de colégio. Mas como já era esperado, Pedro não disse isso. Nem disse nada. Apenas repetiu a sobremesa em silêncio e se retirou rumo à cozinha, para jantar. A conversa à mesa continuou sem pausas ou interrupções. E ele, distante, vagando por seus pensamentos confusos, parecia sequer ser notado pelos Couto. Momentos ou outros ele era despertado de suas divagações pela mão de Laura que lhe acariciava a coxa, mesma coxa que havia sido tocada antes pela calça jeans do irmão. Ele estava se sentindo muito mal pelo ocorrido, por não ter correspondido aos carinhos da namorada. E por não ter correspondido também à gentileza do sogro e ao repentino bom humor da sogra, que havia parado definitivamente de lhe importunar. Olhou repetidas vezes para o relógio de pulso até que Laura lhe perguntou se tinha algum horário estabelecido para voltar pra casa. E ele, mentindo, disse que já era tarde e sua mãe o esperava. Com esse pretexto ele conseguiu se despedir dos Couto e ir embora da luxuosa casa que lhe trouxera problemas demais para uma única noite. Caminhando rumo à sua casa, ele quase foi atropelado por uma moto, pisou centenas de folhas caídas no chão, acordou algumas pombas na calçada e matou, sem dúvida, dezenas de formigas. Ele sequer preocupou-se com a boa ou má impressão que teria causado aos pais de Laura. Nada disso lhe importava agora. Precisava voltar pra casa, deitar e dormir, preferencialmente um sono sem sonhos. Alguns meses se passaram sem que ele tivesse voltado à casa dos Couto. Talvez porque ele mesmo relutasse em ir, talvez porque Laura não quisesse, ou talvez porque os sogros não tivessem gostado da primeira experiência com o genro. O fato é que ele já regularizara sua vida novamente, e nela não cabia mais Pedro. Vez ou outra ele via algum homem que o remetia às recordações daquele memorável jantar com os Couto, mas tudo não passava de insignificantes lembranças, não mais tão conclusivas como antes. Chegou o verão, e como de costume, chegou também a época do ingresso dos calouros na universidade. Era uma época muito esperada, tanto para os próprios calouros, como também para os veteranos, que batizavam os novatos e faziam novas amizades. Chegado o dia das matrículas, ele estava com seu grupo e com Laura à espera dos calouros, quando um garoto coberto de tinta e farinha se destacou entre os outros pintados. Ele foi se aproximando, lentamente, com um sorriso inconfundível no rosto. Seu sorriso era realmente inconfundível, compondo delicadamente a face em contraposição às grossas sobrancelhas... o jeito de andar e os braços largos dissiparam quaisquer dúvidas. Era ele. Era Pedro, irmão de Laura, que chegara mais uma vez para embaraçar sua vida e seu namoro. Mas Laura não havia mencionado nada a respeito do possível ingresso do irmão na universidade. Talvez não fosse importante para ela! Como ele desejara naquele momento estar em casa ardendo em febre e envolto por cobertores aos cuidados de sua mãe. Como ele desejara estar em outro lugar e estar ali, observando o garoto por um momento eterno. Aquele era o sinal de que sua vida seria indiscutivelmente balançada naquele ano que se iniciava. Não sabia bem como reagir a tal surpresa. Seu coração disparou e ele não conseguiu pensar em outra coisa que não fosse fugir. Não tinha mais controle sobre suas ações e se viu correndo descompassadamente na direção contrária à de Pedro. Correu e não soube o porquê. Apenas correu, imaturo, infantil, correu. E correu até que não lhe restou nem mais um sopro de ar nos pulmões, seus músculos desfaleceram e os joelhos atingiram com força o chão. Tinha posto tudo a perder. Qualquer chance de esconder seus sentimentos e supera-los, lutar por Laura, havia se esvaído no maldito momento em que ele resolvera fugir do cunhado. *** Não se lembrava de mais nada além desse ponto. Preferia não lembrar. As lágrimas agora já haviam secado e ele se encorajara a tirar as mãos do rosto e enfim encarar novamente sua pobre mãe, para então poder lhe contar toda a verdade. Só ele sabia o quanto desejara contar tudo a ela antes, mas nunca tivera coragem. Ela estava ainda na maca, olhar perdido, lágrimas escorrendo pelo rosto tão envelhecido. Cada lágrima lhe manchava de vinho o rosto. A capa do livro já havia absorvido o vinho por completo e se confundia entre as páginas iniciais. Agora o vinho tomava injustamente o último capítulo daquele precioso livro. Capítulo este com tão poucas anotações e muita dor. Originalmente já eram encharcadas de lágrimas, salgadas e transparentes, que agora davam lugar àquele vinho impiedoso e cruel. Ele balbuciou alguma interjeição confusa, preparando-se para a tão esperada confissão. Inesperadamente, ela se virou e o fitou. Seus olhos, vermelhos e cansados, estavam tomados por uma tranqüilidade deprimente, ela havia desistido. Não tinha lhe restado razão alguma para resistir. E foi assim, em meio ao desabrochar dos botões de orquídeas, em meio ao silêncio cúmplice do vento, em meio às manchas de vinho tinto, que ele viu sua mãe dar o último suspiro, com o braço esquerdo esticado em direção a ele, a mão aberta, como que tentasse em vão tocar o rosto do filho. O monitor cardíaco do quarto iniciou então um barulho estridente e contínuo, marcando o início do fim, a última página tomada pelo vinho tinto. Desobedecendo então às leis químicas, ele viu o vinho seguir seu tortuoso caminho, invadindo e penetrando a madeira escura da mesa de cabeceira e adentrando a gaveta que guardava uma carta escrita por sua mãe de próprio punho, endereçada a ele. Jamais teria conseguido ver o conteúdo da carta devido às manchas do nobre vinho. Na carta ela o perdoaria por seus atos inconseqüentes mesmo sem conhecê-los, ou o culparia pela desgraça da família numa dívida que carregaria consigo até o fim de seus dias. Nem uma, nem outra. Ele se restringiu a observar a mãe, ainda com medo de tocá-la, medo de dar-lhe a mão como ela havia pretendido um momento antes. Olhou novamente à sua volta e não viu mais vinho, nem livro, nem carta. Tudo havia desaparecido como se nem ao menos tivesse existido. Em pouco tempo o enfermeiro surgiu na sala seguido do médico responsável. As conversas que se sucederam foram apagadas da memória do filho órfão tão rápido quanto ocorreram e o quarto parecia agora coberto por uma névoa inebriante e inquisidora. Tendo o corpo sido liberado da necropsia, o atestado de óbito de sua mãe lhe foi entregue e ele leu com pesar a causa mortis dada por um ataque cardíaco fulminante. Ela havia passado seus minutos finais em companhia do filho desnaturado, esperando que ele tivesse a coragem que não houvera tido por anos de lhe dar as explicações merecidas. Ela nem ao menos conhecia o rumo que a vida do filho havia tomado. Ele, o primogênito, tinha o dever de zelar pelo que sobrara da família. Tinha o dever de cuidar da irmã mais nova ─ que já havia a essas alturas se consolidado na carreira e morava no exterior, numa situação consideravelmente mais confortável que a do irmão mais velho. A irmã sem dúvida alguma era independente o suficiente a ponto de não carecer dos precários cuidados dele. E a mãe, que adoecera de desgosto ao ver o filho destruir a própria vida e a da família de Laura, não requeria mais cuidados nem atenção. Todos os anos que a mãe ficou em coma induzido no hospital municipal foram uma chance que a vida deu a ele para corrigir seus erros e ressarcir os danos causados à família Couto por suas inconseqüências. Mas ele não soube aproveitar a chance. Apenas seguiu seu coração sem se preocupar em o que acarretariam suas decisões a terceiros. Encaminhou-se até o estacionamento do hospital, pegou sua moto e foi dirigindo a caminho de casa, pensando em todos os procedimentos que teria que tomar para o velório de sua mãe e em como dizer à sua irmã do ocorrido. Ela mal sabia que a mãe havia saído do coma! Seria realmente uma notícia difícil. Mas pior ainda seria convencer a si mesmo de que era verdade tudo o que acabara de ocorrer. Sentia o vento ricocheteando seu rosto numa sensação absoluta de liberdade, e por alguns breves momentos conseguia sentir-se à parte de seus problemas, como se tudo estivesse resolvido, sem pendências ou culpas. Chegando em casa, a cara inchada de tanto chorar, foi calorosamente recebido por Pedro, que o aguardava ansioso por novidades sobre a conversa que ele havia prometido que teria com a mãe. Ao indagar sobre a conversa e não obter resposta, Pedro o abraçou e o manteve soluçando em seu colo. Não seria necessária nenhuma palavra naquele momento. Pedro já supunha que a morte chegaria em breve. Nesse momento não há conselho, consolo ou palavras confortantes: só o silêncio é capaz de transpor o sofrimento. Pedro manteve-se calado por alguns minutos, afastou-o e deu-lhe um beijo. Era a segurança de que ele precisava, a confirmação do amor companheiro e inesgotável. O amor que é eterno enquanto durar. Foi então que ele teve a certeza de que não havia pecado ao seguir seu coração. O mundo ainda não está preparado para admitir esse tipo de relação afetiva, livre. E ele teve no sogro o exemplo mais claro: cometeu erros irreparáveis e inestimáveis ao agir impulsivamente. Não permitiu o homossexualismo presente no ventre de sua família e teve que pagar com a própria liberdade. Pedro não se arrependia das escolhas que fizera e não se sentia culpado pelas reações do pai, era menos sentimental e mais racional. Talvez a vida pudesse lhes sorrir após tantas batalhas vencidas. Mas Pedro sofria pelo companheiro que não teve a chance de ser perdoado por causar tanto sofrimento à mãe. Seriam chagas eternas, a da dúvida e da culpa. Mas nada disso importava agora, que não fosse a união dos dois. Preferiam esquecer os obstáculos e viver a vida da melhor forma possível. Ele acariciou Pedro, complacente. Só queria permanecer nos braços do amado, em que se sentia seguro e desejado. Atravessariam juntos os obstáculos seguintes, cúmplices um do outro, olhando sempre em frente. Se eles permaneceram juntos e bem até o fim de suas vidas? Isso não é relevante, contanto que tenha valido a pena cada lágrima, cada gota de suor e cada momento de prazer. (04.03.2006)
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349. É o meu. Aceno. O motorista pára. Entro. Digo boa tarde. "Boa tarde, moça". Passo o cartão magnético pela maquininha. Na cobradora vejo um semblante triste e num grande esforço ela autoriza a minha passagem com seu cartão branco-sujo na mesma maquininha. Passo pela roleta. Agradeço. Sem resposta. Sento-me ao lado de uma senhora de olhar fixo em seus sapatos. Mexe os pés de um lado a outro e observa atentamente cada mancha dos sapatos brancos sujos, de um branco mais sujo que o branco sujo do cartão magnético da infeliz cobradora. A senhora deve estar pensando quanta graxa terá de comprar para que seus sapatos fiquem brancos de novo. Será que um potinho é suficiente? Ou o vidro é melhor? Ou então se o dinheiro que traz na carteira será suficiente para comprar o vidro de graxa branca e os biscoitinhos crocantes de nata cobertos com chocolate para o aniversário do neto. Tão esperto, o menino! Mal ingressara no pré-primário e já havia gastado todas as folhas do bloquinho de notas escrevendo o próprio nome à caneta. E distribuíra as folhas entre os familiares, como se desse autógrafos. "Boa tarde, moça, eu sou do grupo de ajuda a crianças com câncer do Boldrini, a senhorita gostaria de comprar um chocolate para contribuir com o tratamento das nossas crianças? 25 centavos cada." Compro dois e deixo o troco. Não tenho muita convicção de que este dinheiro vá mesmo para o tratamento de crianças com câncer, mas pelo menos o homem poderá comprar uma cerveja quando descer do ônibus. Está muito quente hoje. Olho pela janela. Não é muito difícil já que a senhora ao meu lado continua curvada olhando seus sapatos. Na rua uma grande movimentação de pessoas. Um homem de terno fala ao celular, anda olhando para baixo e mexe no cabelo sem parar. Outro faz anotações num bloquinho, está pesquisando preços para comprar uma geladeira nova, a antiga não presta mais depois da enchente que deu na cidade mês passado. E a mulher é só reclamação desde que teve que pedir um espaço na geladeira do vizinho para não estragar o leite. "Leite em pó eu não tomo de jeito nenhum! Tem gosto de água suja!" E a prestação tem que ser muito pequena, comprar geladeira à vista é coisa de rico. Pobre compra mesmo a perder de vista. Um tranco. Meu caderno cai no chão. O ônibus parou no ponto e entra agora um garoto loiro, cabelo comprido, bonito, com um fone de ouvido e uma música tão alta que fez o semblante da cobradora piorar um pouco mais (como se pudesse!). Senta-se atrás de mim. A música me perturba e também à senhora ao meu lado, que parou de olhar os sapatos e agora fica encarando o garoto, como se ele fosse notá-la e abaixar o volume. Acho que eu até gostaria da música se não fosse obrigada a ouvir esse chiado insuportável. Enfim o ônibus se aproxima do terminal. É o ponto final, meu ponto de descida. Dou uma última olhada para a senhora ao lado, como se me despedisse de uma velha amiga a qual vejo pela última vez. Também desejo que seu dinheiro dê para comprar a graxa branca e que ela não tenha mais que andar com sapatos brancos tão sujos. E uma última olhada no garoto do fone de ouvido, como era esperado ele não abaixou o volume, continua com aquele mesmo chiado. E a cobradora, ainda há alguma chance de vê-la novamente, mas preferiria não memorizar seu rosto deprimido, me deixa angustiada. Desço do ônibus. Um passo, outro passo, mais um passo e quase tropeço num paralelepípedo mal encaixado na calçada. À minha frente, um senhor com seus sessenta e poucos anos, barba branca e óculos trincado me observa e dá um sorriso. Provavelmente percebeu a minha tentativa frustrada de disfarçar o tropeço e achou graça. Ele segura à mão esquerda - é canhoto - uma vassoura e à mão direita uma pá de lixo, e recolhe umas laranjas que estão espalhadas pelo chão do Mercado. Um homem, que passara ali correndo há uns cinco minutos havia derrubado a caixa azul de laranjas e nem imagina o prejuízo que deu ao velho, que hoje não trouxe para o Mercado nada além das pobres laranjas. Reservo-me a dar um sorriso de volta ao velho e sigo em meu caminho. Outro homem de terno falando ao celular. Há clones deste por todo o centro da cidade. O semáforo abre. Aguardo pacientemente os 40 segundos até que ele feche novamente. "Não vai comprar muita coisa não, né vó?" "Não, minha filha, só preciso dos legumes e do cheiro verde." Olho para a avó em pé ao meu lado e me pergunto por que as avós gostam tanto de colocar cheiro verde na comida. Eu particularmente não gosto. O semáforo fecha. Viro-me para observar por um último instante o velho das laranjas e ele já está com a caixa azul sobre seus ombros indo para casa. As laranjas dentro da caixa. Laranjas serão o seu jantar hoje. Ele não faz muita questão de jantar mesmo, desde que a mulher faleceu não tem mais comida caprichada nem sopa de batata. A filha até poderia levar-lhe alguma comida de vez em quando ou convidá-lo para um churrasco de domingo, mas ela não faz questão alguma. Atravesso a avenida. Chegando do outro lado, um grande açougue. "Aproveite! Oferta do mês: asa de frango só R$3,29/kg". Um rapaz de branco, encostado no portão do açougue me olha e pergunta se quero ser a sua "galinha". Se eu quero ser galinha dele? Eu me surpreendo cada dia mais com a capacidade dos homens em fazer com que as mulheres não lhes dêem valor. Ser a galinha do açougueiro? Esta superou todas as pornografias que já ouvi dos cachaceiros de bar. Homem é tudo igual. E mulher também. Sigo em meu caminho. Ainda tenho que andar três quadras para pegar o próximo ônibus. A alguns metros adiante passo por um ponto de ônibus. Na verdade, apenas o prefeito deve achar que aquele poste com a faixa amarela chama-se ponto de ônibus, mas como também não tem outro nome para a displicência do governo municipal, chama-se aquilo de ponto mesmo. Colado no poste, um folheto com as palavras "Compro ouro" escritas em azul e um número de telefone embaixo. 33212941. 33212941. 33213941. 33313981. Fico repetindo esses números rua abaixo. Eu tenho uma capacidade incrível de memorização. Acabo trocando alguns números depois de um tempo, mas o principal permanece. Como se fosse útil decorar só uma parte do telefone de alguém! 3... 3... 1... 3... 9... 8... 1... e não me lembro do último. Deve ser outro 1, ou zero. É, talvez eu tenha superestimado minha capacidade de memorização. Isso não deve ser bom para quem faz novela. Decorar aquelas falas enormes definitivamente não é a minha praia, já me contento em decorar partes de números de telefones e as linhas dos ônibus que tenho que pegar. Uma farmácia do outro lado da rua. Lembro-me de que preciso comprar uma cartela de Tylenol. As dores de cabeça têm sido diárias. Não gosto de farmácias, eu gostaria de ter a opção de comprar camisinha ou supositório sem reparar na sugestiva feição do funcionário do caixa. Toda vez é sempre a mesma coisa. Ele me olha e ri. Antes não ria, e não riria se não me visse aqui toda semana comprando supositório. Eu tenho o hábito de não armazenar medicamento em casa. Acho um desperdício de dinheiro e tenho outras coisas com que ocupar minhas gavetas. Entro na farmácia, vou direto para a prateleira das cartelas e pego o Tylenol sem ser importunada. A atendente já não me oferece mais o genérico, com muito custo eu a convenci de que os genéricos não são tão eficientes quanto os medicamentos comuns. Ela trabalha aqui há uns dois anos, tomou o lugar de uma outra que foi pega levando um xarope na bolsa ao final do expediente. A coitada tinha o filho doente em casa e não tinha dinheiro para comprar remédio. Era um gasto inesperado e o salário só cairia na conta no mês seguinte. Cairia, porque não caiu. Foi demitida por justa causa, não pôde reclamar seus direitos. E a tosse do filho melhorou em menos de uma semana. Ele sem xarope e ela sem emprego. Já na fila do caixa aguardo pacientemente enquanto duas meninas à minha frente riem e falam alto. Cada uma com uma sacola na mão. Sacola da farmácia mesmo, daquelas enormes, que fazem a gente achar que comprou pouco e que pode comprar mais porque não importa quanta mercadoria haja lá dentro, sempre haverá muito espaço sobrando. Peculiaridades do capitalismo. Olho (sem ser notada) o conteúdo das sacolas. São ataduras, vários saquinhos azuis de atadura de tamanhos variados. As meninas estão com muita vergonha, também devem temer a impiedosa feição do funcionário do caixa quando vir o estoque de atadura que estão comprando. Até diriam, se conviesse, que as ataduras são para uma fantasia de Halloween, mas não imaginam o que seria mais vergonhoso! Enfim, em meio a muitas risadas e conversas, as meninas pagam pelas ataduras e saem da farmácia, sempre falando muito alto. Agora é a minha vez. O funcionário se surpreende na expectativa falha de que eu estivesse ali para comprar supositório novamente. Nem deve ter notado que eu só compro supositório às terças, a fim de aproveitar a promoção. E hoje não é terça. Eu só compraria um supositório hoje em caso de extrema urgência. "Não tem trocado?" Não, não tenho. Não gosto de moedas, elas não têm muito valor para mim e fazem um barulho um tanto quanto inconveniente. Acabo aceitando dois chicletes Valda, a fim de não ter que guardar as malditas moedinhas. Enfio a cartelinha de Tylenol e os chicletes no bolso e saio da farmácia sem olhar para trás. A alguns metros à frente entro à direita e depois à esquerda, esquerda novamente e aí está meu ponto. Ah, este sim é um verdadeiro ponto de ônibus! Tem assentos, um lixinho e ainda uma placa com as linhas de ônibus que param aqui. Agora já não posso me queixar do trabalho da prefeitura. Estou perfeitamente acomodada em meu assento preferido, pintado num tom de azul escuro, arredondado e ligeiramente curvado para baixo, garantia de uma melhor acomodação. Protegida do Sol eu posso abrir meu chiclete tranqüilamente e ainda jogar o papel no lixo! Um homem senta-se ao meu lado. Não estritamente ao meu lado, mas a dois assentos de mim. Eu não entendo o porquê de não sentar-se ao lado de alguém desconhecido. Essa atitude é perfeitamente comum em cinemas e pontos de ônibus. Acho que só se sentaria ao meu lado se todos os outros acentos estivessem preenchidos. Talvez não. Talvez ele preferisse esperar em pé mesmo. O homem olha fixamente para a carteira que tem nas mãos. Mexe nos cartões, no cheque, nas moedas, conta as notas e pega um envelope de fotos 3x4. Olho de canto de olho e consigo distinguir uma foto de criança, sua filha Carolina de 4 anos e 7 meses que mora com a mãe, uma ruiva de olhos castanhos que enxerguei na outra foto do envelope. Paro de olhar, para não dar muito na cara. Mas o homem continua olhando as duas fotos e passa levemente o dedo polegar sobre o plástico como se acariciasse o rosto de sua frágil princesinha. Ah, que saudade! A mãe já não permite mais as visitas tão constantes. Carolina, coitada, não tem nem idade para reivindicar seus direitos. E ao pai, que tem idade, falta coragem para enfrentar a mãe. Quanto mais a justiça! O homem continua fitando a imagem da pequena filha. Uma lágrima tímida escorre por seu rosto e ele se apressa em enxugá-la. Não quer que ninguém note suas fraquezas, isso seria um tanto quanto desconfortante. Passa o 615, o tal Jardim Lafayete. Eu sempre tive muita vontade de entrar nesse ônibus e percorrer seu trajeto inteiro, acho que ele dá a volta na cidade. É impressionante, passa por todos os pontos de ônibus que eu conheço! E sempre tem uma dúzia de passageiros entrando ou saindo dele. Para minha surpresa o homem faz sinal para o 615 e se levanta. Sinto um desejo instigante de me levantar também e entrar atrás dele, mas fico sentada. Meu ônibus já deve estar chegando. O homem entrou no ônibus e quatro senhoras desceram. Agora estou sozinha no ponto, eu e meu chiclete Valda que a essa altura já perdeu o gosto. Aguardo mais alguns minutos, observando os poucos carros que passam por mim no sinal verde. Quando eu era criança gostava de observar as pessoas em seus automóveis: lia os nomes das cidades nas placas e criava riquíssimas histórias para os passageiros. Passei a criar também vidas para os pedestres e para os demais desconhecidos. Mas quando fui descoberta em minha brincadeira quase constante, reprimiram-me e me aconselharam a nunca mais viver no dito "mundo fantasioso" que, segundo eles, prejudicava a minha interação com as pessoas ao meu redor. Desde então eu nunca mais criei histórias, nem preciso, porque elas se abrem para minha mente como um livro de registros. Os pensamentos e as lembranças dos outros não hesitam em vir me encontrar, são recebidos de portas abertas sempre que possível. 349. É o meu. Aceno. O motorista pára. Entro. Digo boa tarde. "Boa tarde, moça". Passo o cartão magnético pela maquininha. Na cobradora vejo um semblante triste e num grande esforço ela autoriza a minha passagem com seu cartão branco-sujo na mesma maquininha. Passo pela roleta. Agradeço. Sem resposta. Caminho até o final do ônibus e sento-me na última poltrona, ao lado de uma garotinha muito alegre, que me recebe com um largo sorriso. À frente dela, uma mulher ruiva de olhos castanhos, sua mãe, que lhe aponta um olhar de reprovação ao gesto simpático. A garotinha, Carolina, está indo com a mãe para a casa da avó, onde passará o resto da semana. A feição preocupada da mãe transparece o receio de que o ex-marido descubra o novo refúgio da filha e resolva ir procurá-la na casa da avó. E a pequena Carolina simplesmente não compreende o motivo porque deve se esconder do pai. Afinal, o que ele tinha feito de tão ruim? Eu passo o resto do caminho pensando no pai de Carolina. Se ele tivesse esperado mais alguns minutos no ponto, se tivesse pegado o mesmo ônibus que eu, nada o impediria de ver sua filha. Mas a essa hora ele está rumando para o lado oposto da cidade, provavelmente ainda tentando acariciar o rosto de Carolina pela foto. Ingrato destino, ingrato. Olho para o céu e já está escurecendo. É o fim de mais um dia, fim de mais uma jornada. O ônibus pára no Mercado e eu desço. A garotinha e sua mãe já desceram em algum outro ponto antes, mas eu não reparei. Um passo, outro passo. Desta vez eu me lembrei do paralelepípedo mal encaixado e desviei. Vou caminhando até minha casa, sem mais descrições por hoje. Simplesmente um passo após o outro, cabisbaixa e olhos semi-cerrados. Não gosto da escuridão, me traz lembranças ruins do meu tempo de criança. Vou agora cumprir minha sina, esperar mais uma vez pela claridade do Sol para então poder desvendar novas lembranças e histórias que não sejam de preferência as minhas. Vou agora esperar por novas doações de alma, novos sopros de vida. Porque minha vida foi feita com um passado que eu renego. Renego, repudio e não admito. Enquanto eu tiver meu cartão magnético recarregado e a luz do Sol diária, ainda existe esperança de reconstruir minha vida, minha colcha repleta de retalhos alheios. (03.21.2006)
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